31 de jul de 2010

Leituras tortas: Tio Rei desconstruindo boatos sobre o resultado do Ibope e evidenciando o pesquiseiro Toledo

Leituras tortas
Pesquisas também colaboram para chutes que revelam mais a inclinação do analista do que a verdade dos números. No post que escrevi na semana passada sobre os números do Datafolha, notei que há uma grande pressão para que os tucanos deixem de lado os porões do PT.

No Estadão de hoje, José Roberto de Toledo analisa os números do Ibope. Escreve:
“O resultado desfavorável a Serra no Ibope ocorre depois de o tucano ter intensificado as críticas ao governo Lula. Por influência de seu principal marqueteiro, o tucano passou a atacar pontos específicos da gestão petista, como a política exterior e a relação do PT com movimentos sociais que têm uma imagem negativa na classe média, como o MST”.

É evidente que o autor está sugerindo que há aí uma relação de causa e efeito. É fácil, muito fácil, desconstruir a ilação:

1 - Segundo o Ibope, no dia 3 de junho, Serra e Dilma estavam empatados em 37%,. Dezoito dias depois, a diferença em favor da petista era de 6 pontos (38% a 32%), e o tucano, segundo Toledo ao menos, ainda não atacava “pontos específicos” da gestão petista;

2 - “Política exterior” deve ser a “política externa”. Serra a vem criticando desde sempre. Referiu-se ao alinhamento do Brasil com o Irã, por exemplo, em dois discursos: naquele em que admitiu ser o candidato tucano e na fala oficial da convenção. Isso não é novo em sua fala;

3 - Também não é nova a crítica à relação deletéria entre o governo e o MST — como revelam seus discursos e suas entrevistas Brasil afora. Tudo isso têm data e está em arquivo. Nota à margem: o MST não tem uma imagem ruim só na classe média, não. O grupo é repudiado pela esmagadora maioria dos brasileiros de todas as classes;

4 - O que é relativamente novo é a crítica aos flertes do governo e do PT com as Farc, isto sim. As Farc não são um “movimento social”. Lula voltou a escolher o pior lado ao tentar desqualificar o governo colombiano, que exibe uma fartura de provas da aliança de Hugo Chávez com os narcoterroristas — que já foram parceiros no PT no Foro de São Paulo.

Ao tentar criar uma relação de causa e efeito entre a crítica mais dura de Serra ao governo e um resultado momentaneamente desfavorável no Ibope, Toledo se comporta como pesquiseiro de obra feita — vale dizer: não tendo uma boa razão para explicar a vai-e-vem do eleitorado, então cai numa falácia lógica que já era apontada pelos escolásticos: “Depois disso, logo, por causa disso” — a forma latina consagrada é esta: “Post hoc, ergo propter hoc”. Caso o discurso de Serra fosse manso como um cordeiro, o autor certamente veria na ausência de confronto a causa da diferença. O que vem antes não é causa necessária do que bem depois.

Eu não sei se o autor da ilação sabe disto ou não, só sei que é fato: a versão de que atacar as relações entre o PT e as Farc é ruim para Serra surgiu no PT. Como não acredito que os petistas queiram o bem do candidato tucano, então me parece que a patacoada interessa aos… petistas.

O “principal marqueteiro de Serra” deu a ele aqueles conselhos, é? Então fez bem. Eu estou entre aqueles que acreditam no poder saneador da verdade. E acho que falta dizer algumas verdades sobre o PT e o governo. Mas deixo isso para a minha volta. Afinal, ainda estou de férias, c0mo sabem. Na madrugada de segunda, volto de mangas arregaçadas. Vai, Tio Rei, em busca do que resta de sol!


Tio Rei

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