1 de ago de 2010

As lágrimas de Lula

Na verdade, Lula vive uma situação bastante incomum: para a maioria dos detentores de cargos majoritários, quanto mais presidentes, o fim de um mandato os obriga a sair dos palácios e voltar aos palanques. Para Lula, especialmente se vencer com Dilma, será exatamente o contrário. Talvez esse seja um motivo de choro.

Provou isso ao embargar a voz e encharcar os olhos no comício de Porto Alegre. Mesmo sabendo que ofuscaria sua pupila, não hesitou em roubar-lhe a festa. “Faltam apenas cinco meses e dois dias”, disse, olhando firme para uma Dilma que, minutos antes, mesmo com um discurso menos técnico, feito sem teleprompter, não conseguiu animar a platéia. Já Lula, mal terminava um parágrafo, tamanha a efusão de aplausos, gritos, palavras de ordem. O que ele dizia não interessava muito. Valia só a emoção pura.

E Lula se deliciava.

Na TV Record, as lágrimas foram ainda mais abundantes. Chorou ao falar do empréstimo do BNDES à cooperativa de catadores de lixo de São Paulo. Na mesma entrevista, aí sem engasgos e com tom ameaçador, fugiu de responder à questão sobre as seis multas que recebeu do TSE. Preferiu desqualificar a revista Veja: “Não vejo essa revista”.

E foi mais longe. Depois de criticar os veículos de comunicação – “se dependesse de alguns eu teria zero na pesquisa” - não conseguiu disfarçar que entende como utilitária a relação com a imprensa: - “não preciso deles para nada”, disse, referindo-se à Veja. O que isso quer dizer? Se precisasse seria diferente?

As críticas mais amiúde à imprensa, a aposta do “nós”, o bem, contra “eles”, o mal, não são novidade. Agora, acrescentam-se as lágrimas. A incomensurável tristeza de um presidente, o mais popular que o país já teve, a quem a lei de um país democrático usurpou o direito de concorrer a um terceiro mandado.

Não passam de lágrimas de crocodilo.



A íntegra em BlogdoNoblat

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