22 de mai de 2011

Crônica de Nelson Rodrigues: a onipresença numérica das esquerdas nas artes

Parte da crônica de Nelson Rodrgues: O Palavrão Humilhado, do livro A Cabra Vadia. Quando Olavo de Carvalho fala das tendências da revolução cultural adotada pelas esquerdas nos anos 60 e 70, em que se pode ver o resultado hoje, muitos crêem que Olavo blefa. Eis aí uma prova. 

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Só muito depois descobria eu a verdade, que é a seguinte: — as nossas esquerdas não têm nenhuma vocação do risco. E possuem a vocação inversa da segurança. Ainda ontem, falava eu da sábia distância que vai do Antonio’s ao Vietnã. Aí está dito tudo. E, assim, sem arredar pé do Antonio’s, e bebendo cerveja em lata, as esquerdas não morrerão jamais. 

O leitor há de perguntar, com irritação e escândalo: — “Mas elas não fazem nada?”. Responderei: — “Fazem”. Insistirá o leitor: — “E fazem o quê?”. Direi: — “Autopromoção”. É a pura verdade. A esquerda não sai por aí, derrubando bastilhas e decapitando marias antonietas, porque está ocupada em se autopromover.  

Abram os jornais, ouçam o rádio, vejam a televisão. O “grande poeta”, o “grande crítico”, o “grande ensaísta”, o “grande romancista”, o “grande dramaturgo” — são membros da “festiva”. Gustavo Corção acaba de publicar um grande livro. É toda uma meditação maravilhosa. Dois volumes de uma lucidez apavorante. E não sai, em lugar nenhum, uma linha, uma vírgula, nada. A imprensa, as câmaras e os microfones estão cegos, surdos e mudos para a obra de Corção. 

É inédita essa capacidade promocional das esquerdas. Elas ocuparam as redações. Não brigam, nem chupam o sangue da burguesia. Em compensação, a glória, ou execração, depende do seu exclusivo arbítrio. Ou faz uma reputação literária  ou, com um piparote, a derruba. É um terrorismo cultural que se exerce, na melhor das hipóteses, com o silêncio. Corção é reacionário? Silêncio em cima dele.
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Artigo 1/2/1968

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